De maneira geral, chama a nossa atenção o estilo do famoso sermão da montanha de Jesus (Mateus 5-7): é muito vivo, visando penetrar e calar fundo na mente dos leitores mediante as suas imagens, os seus contrastes e aparentes paradoxos. Assim é que Jesus fala aos seus ouvintes de:
– Arrancar o próprio olho (5,29),
– Amputar a mão direita (5,30),
– Só dizer «Sim, sim; Não, não», pois ulteriores palavras seriam inspiradas pelo Maligno (5,36),
– Entregar [também] o manto a quem queira tirar [apenas] a túnica (5,40),
– Dar dois mil passos quando nos angariam para mil apenas (5,41), e
– Apresentar a face esquerda a quem bata na direita (5,39).
O entendimento literal destas expressões teria feito dos discípulos de Jesus, logo no início do Cristianismo, um rebanho simplório, posto à mercê de todo aventureiro ou explorador; uma tal «prática do Evangelho» só faria promover o mal no mundo, dando ocasião a que ímpios e criminosos acabassem por sufocar a causa do direito, do amor e da verdade. As gerações cristãs, desde o início da nossa Era, bem entenderam o sentido metafórico e hiperbólico das citadas frases de Mateus 5-7; nunca se julgaram obrigadas, por fidelidade ao Evangelho, a se arrancar um olho, amputar a mão direita, entregar manto e túnica em mãos do ladrão, nem a apresentar a face esquerda a quem batesse na direita. Jesus mesmo deu a interpretação autêntica de suas palavras quando foi esbofeteado por um dos guardas da corte do Sumo Sacerdote judeu: não julgou necessário, nem mesmo conveniente, fazer-se espancar de novo, mas, mediante palavras serenas, procurou promover o bem do injusto agressor, pedindo-lhe tomasse consciência exata do motivo por que havia agido:
– “Se falei mal, dá testemunho disto; mas, se falei bem, porque assim me bates?” (João 18,23).
Assim procedendo, o Senhor incutia o direito que toca a quem é injustamente acusado, de defender a sua causa e pôr às claras a verdade, a fim de que não seja deturpado o bem comum:
– “A resposta de Jesus deve servir de garantia aos acusados; é preciso que se lhes reconheça o direito de se defenderem e de responderem livremente” (M.-J. Lagrange, “Evangile selon St. Jean”, Paris, 1936, p.467).
Voltando ao texto de Mateus 5,39, Braun assim comenta a atitude do Senhor:
– “Responder tão tranquilamente, mas com tal firmeza, a um homem irado, diante do qual Jesus estava desarmado, isto era, na verdade, apresentar-lhe a outra face” (“Evangile selon St. Jean”, in: «La Sainte Bible», de Pirot-Clamer 10, Paris, 1946, p.458).